Diretoria Executiva – AGB-Aracaju, maio de 2020.

(Em atualização)

I – INTRODUÇÃO

Em fins de janeiro do corrente ano a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou situação de emergência sanitária global após evidências de disseminação do Novo Coronavírus. Registrou-se seu aparecimento no mês de dezembro de 2019, possivelmente transmitido ao ser humano pelo comércio de animais em um mercado de frutos do mar na cidade de Wuhan, capital da província de Hubei, na China. Em 11 de março, a OMS decretou pandemia por Covid-19, visto que o Novo Coronavírus atingiu rápida disseminação no planeta.

Mesmo com comprovação científica de que não poderia ter sido criado em laboratório, fake news se espalharam por todo o mundo, impulsionadas por figuras como Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, sob o jogo político econômico dos interesses do capital em guerra híbrida pela hegemonia mundial, afirmando que o Novo Coronavírus era uma arma chinesa para abalar a economia ocidental.

Ao se propagar pelo mundo, as implicações da pandemia partem das condições naturais, sociais e político-econômicas peculiares de cada país, refletindo o movimento desigual e combinado do capital que se estabelece produzindo a espacialização das desigualdades. Neste sentido, no que tange à periferia do sistema capitalista, as consequências da pandemia têm tomado proporções severas, principalmente à classe social trabalhadora que sobrevive em condições mais precarizadas nas periferias.

No Brasil, ao contrário da China, que adotou medidas rígidas como quarentena compulsória, monitoramento das informações compartilhadas e, a Coreia do Sul, com testagens em massa, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, tem, desde sempre, minimizado os impactos da pandemia em seus pronunciamentos, buscando relativizar as perdas de vidas enquanto maximiza a importância dos danos a economia para salvaguardar os lucros do capital financeiro, industrial e agrário. Sem a mínima pretensão de contingenciar a pandemia e suas consequências humanas, impõe a continuidade de seu governo conduzir um Estado de exceção e política econômica ultra neoliberal de privatização de bens públicos, expropriação de direitos, terras, territórios e natureza.

O primeiro caso de Covid-19 no Brasil foi confirmado no dia 26 de fevereiro no estado São Paulo. Os testes iniciais foram realizados em pessoas oriundas de países onde o vírus já havia se espalhado. Em pouco mais de dois meses o Brasil contabilizava mais de 155 mil diagnósticos positivos, seguidos de 10.127 óbitos[1].

Apesar de países nitidamente neoliberais adotarem medidas de contenção e de mínima garantia da permanência dos trabalhadores em casa, no Brasil o presidente age conforme os interesses mais espúrios dos empresários. Seguido da minimização da gravidade da doença, as ações do governo vão desde o incentivo a flexibilização da quarentena, compartilhamento de fakes news, cortes em investimento na ciência, à participação de atos pedindo fechamento do Congresso e Supremo Tribunal Federal postura que não é condizente até para os moldes da democracia liberal. Além de declarações que não expressam nenhum tipo de respeito com as famílias de pessoas vítimas do Novo Coronavírus.

Enquanto o risco da Covid-19 parecia algo distante, a rotina nos estados brasileiros seguia normalmente. Porém, com a chegada do vírus, e diante da inércia do Governo Federal em relação às medidas de precaução, governadores e prefeitos tomaram a dianteira e iniciaram o processo de implementação do distanciamento social em série por todo o país. Tal medida tem sido considerada responsável por evitar que os sistemas de saúde não tenham rapidamente entrado em colapso, e por fazer com que os números de infectados e de mortos não estejam maiores do que já são.

O que vimos até o momento foi uma quebra de braços entre governadores e prefeitos e o Governo Federal mediante discursos desconexos. De um lado, a grande maioria dos gestores estaduais e municipais sinaliza para a necessidade do isolamento social, enquanto, o presidente da república propaga aos berros que a economia não pode parar, baseando-se em notícias falsas e contra científicas, contando com o apoio de expressiva parte do empresariado nacional, de algumas correntes evangélicas e de um corpo de milicianos com ideário fascista que compõem sua base.

Nesse contexto, Sergipe surge como um estado que, inicialmente, exibiu certa estabilidade no controle da pandemia em seu território, mas que, no entanto, passa pelo processo de rápida expansão dos casos de contaminação. Expomos, pois, por meio de mapas e gráficos, como é espacialmente representada a pandemia em Sergipe.


II – COVID-19 NO ESTADO DE SERGIPE

O primeiro caso de contaminação no estado de Sergipe por Covid-19 foi registrado no dia 14 de março de 2020, em uma moradora da capital, Aracaju, que havia retornado de viagem à Espanha. Em 08 de maio, ou seja, apenas dois meses após o primeiro caso registrado, o estado já contabilizava 1.438 casos confirmados, segundo a Secretaria Estadual de Saúde. O gráfico – 01 mostra como se deu a evolução dos casos confirmados ao longo do período de contágio.

Gráfico – 01: Sergipe – Contaminações por Covid-19 – 14 de março a 08 de maio de 2020.

Notam-se que as medidas restritivas podem ser consideradas relativamente efetivas nas primeiras semanas em que estiveram em vigor. No entanto, com o passar dos dias, os resultados mostram que houve um significativo afrouxamento deste distanciamento, aumentando significativamente o número de pacientes positivados. Isto é representado com uma curva ascendente em curto espaço na linha temporal.

Ainda em relação aos casos de contaminação já registrados, consideramos a população estimada pelo IBGE[2] no estado para calcular a taxa de contaminação por Covid-19. Após um mês do registro do primeiro caso, ou seja, no dia 14 de abril, a taxa de contaminação era de 2 contaminados a cada 100 mil habitantes. No dia 08 de maio, essa taxa chegou a 62,5 contaminados a cada 100 mil habitantes. Isso significa um crescimento de 3.125% na taxa de contaminação em um período de 24 dias.

O primeiro óbito por Covid-19 no estado ocorreu na madrugada do dia 02 de abril. Tratava-se de uma mulher de 61 anos que foi internada dois dias antes de falecer no Hospital de Urgência de Sergipe. Horas depois, falecia a segunda vítima da Covid-19 em Sergipe, um homem de 60 anos que havia chegado de São Paulo 15 dias antes. Em 08 de maio, o número total de óbitos chegou a 28. (Gráfico – 02).

Gráfico – 02: Sergipe – Óbitos por Covid-19 – 02 de abril a 08 de maio de 2020.

Fazemos referência à Nota Técnica sobre a pandemia de Covid-19 em Sergipe[3] produzida pelo Professor André Maurício Conceição de Souza (DFI/UFS), que traz uma rica contribuição com dados e análises sobre a pandemia no estado de Sergipe, como a evolução dos casos confirmados em Sergipe e na Região Metropolitana de Aracaju, a taxa de crescimento diário de contaminação, a taxa de letalidade, a taxa de ocupação dos leitos, dentre outras. No estudo, é abordada a relação dos aumentos de casos no estado com a publicação de decretos governamentais que flexibilizaram o distanciamento social em momentos cruciais. Em nossas análises, apontamos nessa direção.

Apresentamos como esse aumento da pandemia em Sergipe se apresenta espacialmente com mapas e gráficos.


III – ESPACIALIZAÇÃO DA COVID-19 EM SERGIPE

Realizamos nossa análise da espacialização da Covid-19 no estado de Sergipe objetivando subsidiar a compreensão de como o alcance espacial do vírus pode ter relação com as decisões e ações políticas (federais, estaduais e municipais). A pressão exercida pelo empresariado local, assumindo o discurso proferido pelo Governo Federal de privilegiamento da economia em detrimento da saúde, sobre o poder executivo dos estados e municípios em todo o Brasil, tem ressoado também em terras sergipanas. Tal movimento, tem implicado no incentivo a maior adesão da população à quebra da quarentena. Não se nega com isso, as necessidades de sobrevivência de grande parte desse conjunto, entretanto, o relaxamento das normativas de isolamento social, facultadas pelo abrandamento das pressões exercidas por prefeitos e o governador podem ter sido determinantes para o relaxamento da “consciência social”, já tão enfraquecida pelo vírus da desinformação tão comum a uma grande parcela da população sergipana e brasileira.

Os primeiros casos registrados em território sergipano, a partir do dia 14 de março, foram diagnosticados em pessoas recém-chegadas de fora do estado. Estas pessoas eram residentes nos municípios de Aracaju, Propriá, no Baixo São Francisco, e Nossa Senhora da Glória, no Sertão. Após duas semanas a contaminação passou a ser comunitária, ou seja, quando o contágio ocorre entre os habitantes daquele conjunto populacional. Desta forma, ao passo que os números de casos cresciam na capital, paulatinamente foram surgindo novos casos nos municípios do interior. É importante citar que de 09 a 12 de abril ocorreu o feriado prolongado da semana santa, e muitas pessoas saíram de suas residências para fazer compras em feiras, supermercados e para a visitação de familiares.

No dia 22 de abril, cinco semanas após o primeiro registro, e dez dias após o feriado prolongado da semana santa, havia 16 municípios com casos em todo o estado (Mapa – 01).

Mapa – 01: Casos de Covid-19 – Estado de Sergipe – 2020.

Neste período já se notava um aumento de casos que indicava tendência de crescimento mais acelerado. Isso ocorreu porque, além da realização de mais testes pelo governo estadual – 1.241 até então -, houve também uma maior mobilidade das pessoas nas semanas anteriores.

Conforme citado acima, em meados do mês de abril, o governo estadual começou a afrouxar o isolamento social. Caminho semelhante foi seguido pelo governo municipal de Aracaju e de outros municípios do interior. As informações apresentadas para este período já podem ser consideradas reflexos danosos da política de flexibilização dos governos para atender as exigências dos empresários e de alguns grupos religiosos.

O governo estadual iniciou a flexibilização com o Decreto n.º 40.576, publicado em 16 de abril. Feiras livres foram reabertas, empresas de serviços não-essenciais foram autorizados a reabrir (hotéis, motéis, pousadas, lojas de material de construção, imobiliárias, concessionárias de veículos lojas de auto-peças, cartórios e tabelionatos, escritórios de arquitetura e engenharia), e as muitas pessoas ficaram ainda mais à vontade para fazer atividades físicas nos espaços públicos, passear, ir à praia e visitar parentes.

Essa sensação de proteção cresceu ainda mais pela sinalização do governo estadual que previa a reabertura gradual de vários outros tipos de estabelecimentos a partir do dia 28 de abril. Alguns municípios autorizaram a realização de atos religiosos em igrejas – a exemplo do município de Nossa Senhora do Socorro, cujo prefeito se viu obrigado a revogar sua decisão devido ao crescimento de casos em seu município na sequência.

A partir deste momento de afrouxamento do distanciamento social implementado pelos governantes, deu-se início ao crescimento acelerado dos casos de contaminação por Covid-19 no estado. A configuração espacial apresentada no dia 08 de maio (Mapa – 02) mostra o significativo aumento de casos registrados, tanto na capital como no interior. Assim como vem ocorrendo em todo o país, Sergipe passa pelo processo de interiorização da Covid-19.

Mapa – 02: Casos de Covid-19 – Estado de Sergipe – 2020.

Os dez municípios do interior que mais registraram casos até o momento desta análise, possuem população superior a 20 mil habitantes (gráfico – 03). Isso confirma que, no processo de interiorização da Covid-19 em Sergipe, onde há áreas mais urbanizadas e de maiores aglomerações, como feriras de maior porte e comércios locais mais abrangentes, a propagação da doença é mais efetiva.

Gráfico – 03: Evolução dos casos de Covid-19 – Municípios do interior de Sergipe com mais casos – 2020

Observamos que em Sergipe ocorre o mesmo padrão apresentado em todo o país: contaminação mais elevada nas capitais e grandes cidades (centros mais urbanizados), seguindo para cidades médias e, por fim, pequenas cidades.

Sobre os óbitos por Covid-19 no estado, no dia 22 de abril, dentre os casos confirmados (118), 07 foram a óbito – 5 na capital, Aracaju, 1 em Itabaianinha, no Sul do estado, e 1 em Simão Dias, na região centro-sul (Mapa – 03).

Mapa – 03: Óbitos por Covid-19 – Estado de Sergipe – 2020.

Os óbitos também aumentaram, sendo registrados em 15 municípios, conforme representado no mapa – 04.

Mapa – 04: Óbitos por Covid-19 – Estado de Sergipe – 2020.


IV – ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

A pandemia ocorre de forma muito dinâmica, assim como é a sociedade, sua mobilidade pelo espaço geográfico e sua população e as suas interações econômicas, políticas e sociais. Por isto, os dados sobre a pandemia de Covid-19 em Sergipe sofrem alterações a todo momento. Este texto, por exemplo, já possui informações desatualizadas, pois, os números não param de crescer no estado, e as principais causas que avaliamos como centrais na análise são a política e o ideário de flexibilização do isolamento social. Além disso, outros elementos ainda podem e devem ser incorporados à análise, pois o processo ocorre de maneira muito dinâmica.

Consideramos que existe um movimento de contágio que se expande territorialmente no estado de Sergipe, com elevado número de casos concentrados na capital, Aracaju, e um volume cada vez maior de casos de Covid-19 registrado nos municípios do interior do estado, onde, muitas vezes as condições sanitárias são piores.

Entendemos que este crescimento poderia ter sido contido ou estar em menor ritmo, caso as medidas de distanciamento social não tivessem sido afrouxadas pelo governo estadual, que desconsiderou orientações científicas e da OMS. Ao contrário, as medidas governamentais poderiam ter sido conduzidas de forma a garantir a contenção da propagação do vírus.

Dadas as condições limitadas e precárias da rede pública de saúde, faz-se urgente a adoção de medidas governamentais e práticas sociais que visem frear este avanço, sob o risco de haver o colapso de rede de atendimento do estado, conforme estudos científicos vêm indicando. Cabe ressaltar a inexistência de um plano de saúde nacional, coordenado pelo Governo Federal, que articule as ações de combate conta a Covid-19 entre estados e municípios, mesmo já passados três meses da pandemia no país.

Os pronunciamentos do Presidente da República, defendendo o fim do distanciamento social, por vezes baseando-se em notícias falsas ou hipóteses não comprovadas cientificamente, também têm influência direta no crescimento dos números. Seus argumentos são absorvidos, replicados e defendidos com veemência por grande parte do seu eleitorado, e se difundem provocando desinformação. Consequentemente, a agenda destrutiva do governo Bolsonaro lança as vidas dos trabalhadores como presas fáceis para a Covid-19 em nome da sobrevivência da economia e dos lucros dos empresários.

A espacialização da Covid-19 em Sergipe avança em escalada crescente, desde áreas nobres às periferias, mas suas consequências se dão de forma desigual e podem atingir com maior fatalidade, principalmente, as localidades onde há injustiça social. Sem medidas efetivas do Estado que protejam os trabalhadores, estes, que só possuem a sua força de trabalho para sobreviver em precárias condições de renda, alimentação, habitação, saneamento e suporte à saúde, se tornam as principais vítimas em potencial da pandemia, refletindo o movimento histórico em que se fundam as relações de classe estabelecidas pelo modo de produção econômica capitalista.


Referências:

SERGIPE, Informes Epidemiológicos, Secretaria do Estado da Saúde, 2020. Disponíveis em: https://www.saude.se.gov.br/

SOUZA, André M. C. Nota Técnica sobre a pandemia de Covid-19 em Sergipe. Grupo de Mecânica Estatística/DFI/UFS, maio de 2020.

Todos Conta o Corona – https://todoscontraocorona.net.br/

https://cidades.ibge.gov.br/brasil/se/panorama


Notas

[1] (Ministério da Saúde, em 09/05/2020, às 19h).

[2] População estimada para Sergipe: 2.298.696 habitantes. IBGE, agosto de 2019.

[3] O Professor André Maurício Conceição de Souza integra o Grupo de Mecânica Estatística da Universidade Federal de Sergipe, que trabalha com métodos estatísticos e simulações físicas, e vem produzindo trabalhos científicos sobre a infecção viral pelo SARS-CoV-2.