A Carta Aberta publicada pela Professora Dra. Larissa Bombardi denunciando a perseguição que vem sofrendo por causa dos resultados das suas pesquisas, não se constitui, de certa forma uma surpresa, uma vez que diariamente temos nos deparado com intensos ataques aos cientistas, com constantes perseguições aos profissionais que estão diretamente envolvidos na defesa da concepção científica, e pela defesa contra as ideias negacionistas. Narrativa comum aos defensores de uma política de defesa às grandes Corporações Financeiras, às políticas ultraneoliberais.

Nos últimos tempos, a vida dos que ousam refletir, lutar e denunciar a realidade brasileira ficou ainda mais incerta e frágil, muitos têm sentido na pele o temor da morte, ainda mais considerando que, um ativista é morto a cada oito dias no Brasil, conforme denuncia relatório da ONU. Segundo o relatório, entre 2015 e 2019, 174 ativistas brasileiros foram assassinados. As estatísticas do rastro de mortes no país demonstram uma grave e cruel realidade, quando esses números representam mais de 10% de todos os casos registrados pela ONU no período em todo mundo, no qual o Brasil ocupa a segunda posição no ranking geral, ficando atrás apenas da Colômbia. É nessa direção que destacamos o que vem ocorrendo com a Professora Larissa.

A Professora Dra. Larissa Mies Bombardi, do Departamento e da Pós – Graduação de Geografia da Universidade de São Paulo – USP, pesquisadora com larga experiência em estudos da Geografia Agrária, tornou-se mais uma vítima, por se dedicar nos últimos anos em pesquisas sobre o uso de agrotóxicos na agricultura brasileira e sua conexão com a mundialização do capital, dedicando seu Pós-Doutorado na Universidade de Strathclyde – Escócia, desenvolvendo pesquisas, particularmente, sobre os impactos das commodities brasileiras no mercado europeu. A Professora Geógrafa tem sido alvo de ataques acerca das suas pesquisas, em destaque, a publicação de sua autoria do Atlas “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia”, cujos resultados comprovados e compartilhados em inúmeros debates acadêmicos e Fóruns Sociais e de Direitos Humanos em escala nacional e internacional, evidenciam uma realidade caracterizada pela contaminação, adoecimento e morte pelo uso intensivo de venenos.

No ano de 2020, o Governo Federal aprovou o maior número de agrotóxicos da história do Brasil, liberando 493 pesticidas, 4% a mais do ano de 2019, sem nenhuma preocupação com suas consequências, presentes e futuras, ao meio ambiente e à saúde humana. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, conforme o Dossiê da ABRASCO, “as principais doenças relacionadas à intoxicação por agrotóxicos são: arritmias cardíacas, lesões renais, câncer, alergias respiratórias, doença de Parkinson, fibrose pulmonar, entre outras”.

Ressalta-se que para garantir os altíssimos lucros, o agronegócio, de forma impune, intensifica a grilagem de terras, a destruição da vegetação natural, e a degradação dos solos e sistemas hídricos. Nesse cenário, a Pesquisa da Professora Larissa fica claro a quem incomoda.

Ficamos a cada dia mais estarrecidos e assustados com o avanço dos ataques e imposição do amordaçamento do livre pensar, ao se infligir o terror com velhas e novas formas sofisticadas de perversidade como a coação, perseguição e eliminação dos que de algum modo buscam denunciar a realidade destruidora de natureza, terras e vidas humanas.

Na Carta Aberta, publicizada nos meios de comunicação e redes sociais, a Profa. Dra. Larissa Bombardi revela à sociedade a face escandalosa e aterrorizadora barbárie que vivemos. À medida que suas palavras demonstram a força de uma incansável caminhada, a geógrafa desabafa sobre jornadas duplas e triplas em que mulheres trabalhadoras estão submetidas; intimidações dos setores econômicos contra os resultados de suas pesquisas, com recomendações de mudanças de sua rotina; os ataques disseminados em blogs, sites e redes sociais advindos de defensores da extrema direita, ataques claramente homofóbicos. Esses motivos culminaram em sua decisão de sair do Brasil em exílio na Bélgica, para continuar suas pesquisas.

Diante desse Quadro é que a AGB Seção Local – Aracaju e o Grupo de Pesquisa GPECT/CNPq/UFS manifestam o compromisso na defesa da Geografia, e de suas/seus profissionais, da defesa da vida, da realização humana, da pesquisa do conhecimento crítico, manifestando nosso irrestrito apoio e solidariedade à Professora Doutora Larissa Mies Bombardi.

Aracaju, 22 de março de 2021

Associação dos Geógrafos Brasileiros – AGB – Seção Local Aracaju

Grupo de Pesquisa Estado, Capital, Trabalho – GPECT/CNPq/UFS.